terça-feira, 2 de novembro de 2021

FINADOS - DIA DOS VIVOS - Richard Simonetti

 


FINADOS - DIA DOS VIVOS

Richard Simonetti

 

Antigas culturas orientais pranteavam o nascimento e festejavam a morte, partindo de dois princípios:

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Nascer é iniciar uma jornada de dores e atribulações, enfrentando longo degredo neste vale de lágrimas.

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Morrer é desvencilhar-se das amarras e ganhar a amplidão.

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São perfeitamente compatíveis com a Doutrina Espírita, que nos fala da reencarnação como uma experiência difícil, complicada, mas necessária, no estágio de evolução em que nos encontramos.

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 É, digamos, uma materialização a longo prazo, uma armadura de carne que vestimos, a limitar nossas percepções.

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 Ligação tão íntima, tão entranhada, que o corpo passa a integrar nossa alma, como um apêndice, colocando-nos em contato com vicissitudes como a dor, o desajuste, a doença, a senilidade, próprios dos seres biológicos, a se acentuarem na medida em que se desgastam suas células.

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Por outro lado, o esquecimento das experiências anteriores gera boa dose de insegurança. 


O reencarnante situa-se perdido no presente, a caminhar para o futuro sem o referencial do passado.

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E há, ainda, o contato com pessoas e situações que dizem respeito ao pretérito, envolvendo afetos e desafetos. 


Estará às voltas com sentimentos gratuitos e contraditórios de simpatia e antipatia, afeto e desafeto, amor e ódio, envolvendo gente de seu relacionamento, particularmente os familiares.

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Isso tudo é necessário, uma contingência evolutiva.

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A carne é a lixa grossa que desbasta nossas imperfeições mais grosseiras.

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O esquecimento do passado é a bênção do recomeço, a fim de que possamos superar paixões e fixações que precipitaram nossos fracassos no pretérito.

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 A convivência com afetos e desafetos de vidas anteriores é a oportunidade de consolidar afeições e desfazer aversões.

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Mas… enfrentar tudo isso em estado de amnésia, sem a mínima noção do por que dessas experiências!… Barra pesada!

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A literatura psíquica nos dá notícia das angústias do Espírito, quando se prepara para o mergulho na carne, considerando suas próprias limitações e as dificuldades inerentes à jornada humana.

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Em O Livro dos Espíritos, há a questão 341:




 Pergunta Kardec:

  Na incerteza em que se vê, quanto às eventualidades do seu triunfo nas provas que vai suportar na vida, tem o Espírito uma causa de ansiedade antes da sua encarnação?


Responde o mentor:

De ansiedade bem grande, pois que as provas da sua existência o retardarão ou farão avançar, conforme as suporte.

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No livro Nosso Lar, psicografia de Francisco Cândido Xavier, André Luiz reporta-se à ansiedade de Laura, nobre senhora que se preparava para reencarnar.


Não obstante seus incontáveis méritos, encarava com apreensão o mergulho na carne.


E comenta com o Ministro Genésio, um benfeitor espiritual:


  – Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros, a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas. Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina.

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 Basta recordar que o nosso Sol é o mesmo que alimenta os homens; no entanto, meu caro Ministro, tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos. Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas… Em verdade, as úlceras não mais me apoquentam, mas conservo as cicatrizes.

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 Bastaria um leve arranhão, para voltar à enfermidade.

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 Laura reporta-se àquele que talvez seja o maior problema do Espírito reencarnado – a reincidência. Tornar aos mesmos enganos do passado.

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Nas reuniões mediúnicas é comum o contato com Espíritos que simplesmente refugam as oportunidades de reencarnar, alegando que estão muito bem e não se sentem dispostos a enfrentar o mergulho nas incertezas da carne.

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Embora tenham que fazê-lo, mais cedo ou mais tarde, resistem o quanto podem.

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Em face disso tudo, amigo leitor, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que reencarnar é complicado.

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Já desencarnar é o alijar da armadura, a retomada das percepções, o reencontro com os afetos caros.

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É o retorno à amplidão, uma celebração da Vida em plenitude, sem as limitações humanas.

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Se desencarnarmos levando um mínimo de vitórias, na luta contra nossas   imperfeições, se algo fizemos em favor do bem comum, combatendo o egoísmo; se aprendemos a conjugar os verbos amar, perdoar, compreender, na vivência do Evangelho, então seremos muito bem amparados, e nos situaremos felizes como o viajor que finalmente retorna ao lar.

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Estavam certas as antigas culturas orientais.

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Quem sabe, um dia, quando essa realidade for melhor assimilada pela Humanidade, haveremos de mudar as comemorações do dois de novembro.

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Não mais o dia dos mortos.

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Mais apropriadamente, o dia dos vivos.

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Richard Simonetti


FONTE

VADEMECUMESPIRITA. Disponível em https://www.vademecumespirita.com.br/finados+dia+dos+vivos.aspx. Acesso : 2 NOV 2021.

14 AMBIÇÃO DESREGRADA - Cornélio Pires

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14 AMBIÇÃO DESREGRADA

Cornélio Pires


Recebi a sua carta,

Meu caro amigo Silvestre,

Você faz uma consulta

Em grave questão terrestre.


Você deseja saber

O que ocorre aos que se vão

Para a vida, além da morte

Em desregrada ambição.


O amigo não desconhece:

Ambição de fazer bem,

Anseio de ser melhor

Não fazem mal a ninguém.


Mas a febre do egoísmo

De quem quer mais, mais e mais

Sem precisão ou proveito

Arrasa as forças mentais.


Nesses casos, a pessoa,

Larga o corpo, exige e erra,

De ilusão para ilusão,

Perambulando na Terra.


Você recorda o Nhô Neca

Que arruinou muita viúva,

Desencarnado é um mendigo

Mas pensa que é manda chuva.


Depois de morto, o João Panca

Que só queria dinheiro,

Ë vigia de um tesouro

Que enterrou no galinheiro.


Nicão despojava os órfãos

Fosse a cara de quem fosse,

Morreu, mas anda chumbado

Ao sítio do Rio Doce.


Depois de deixar o corpo,

A sovina Dona Bela

É vista à porta dos bancos

E diz que os bancos são dela.


Finou-se a falar em ouro

O nosso Nhonhô da Mata,

Ela agora cata pedras,

Achando que ajunta prata.


Passeando bens dos cegos,

Desencarnou Mano Landi,

Pelo remorso, é um fantasma

Assombrando a Roça Grande.


Tomou muita terra alheia

Nhô Chico do Lavajão,

Desencarnado ele clama

Em sete palmas de chão.


Morreu louco de avareza

O esperto Quinquim de Souza,

Tendo acordado na tumba

Quer vender a própria lousa.


Guarde a certeza, meu caro,

Na trilha da criatura,

Ambição mais ambição,

A soma é sempre loucura.


Louva a paz do necessário

Que o trabalho nos consente,

Tudo aquilo que é demais

É desarranjo na mente.


Você mais cedo ou mais tarde,

Tal qual comigo se deu,

Ressurgirá no outro mundo,

Sozinho como nasceu.

 

XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida. Cap. 14.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

13 COUSA DAS TREVAS - Cornélio Pires

 


13  COUSA DAS TREVAS

Cornélio Pires


Em carta você pergunta

Minha irmã Zina Belém,

O que se pensa do aborto

Na vida do Grande Além.


Desejaria falar

Em verbo claro e graúdo!...

Só sei dizer que onde moro

Aborto complica tudo.


Muitos prometem dar corpo

A credores e a colegas.

Nascem, crescem... Mas depois,

Caminham vivendo às cegas.


Espíritos recusados

Na fúria louca em que estão

Promovem desequilíbrio,

Conflito, perturbação.


E a Lei que tudo corrige

Perante o aborto ilegal

Entrega o problema à dor

Extraindo o bem do mal.


Pode crer: mancha de culpa

Na roupa do pensamento,

Somente desaparece

Com o sabão do sofrimento.


Olhe a tragédia de Ertúzia

Prometeu corpo a Joaquim,

Fugiu do trato, mas hoje

Sofre doenças sem fim.


Téo praticou muito aborto,

Em pobres moças da roça,

Depois entrou na bebida,

Caindo de fossa em fossa.


Dona Helena do Lagedo

Fez os abortos que quis,

Morreu e tornou à Terra

Doente, triste e infeliz.


Lili fez muitos abortos...

Desencarnou em Portela..

Quer nascer... Pede socorro,

Mas o povo corre dela.


Outra arrasava os pequenos

A jorros de água fervente,

E Tuta que, alucinada,

Só vê crianças à frente.


Belinha nasceu no mundo

Para dar corpo ao Libório,

Depois de expulsá-lo a ferros,

Rumou para o sanatório.


Por aborto, lá se foi

Aninha do Desidério...

Da parteira Dona Cissa

Passou para o necrotério.


Tina expulsou quatro vezes,

O espírito de João Róssi,

Logo após, caiu de cama,

Morreu de câncer precoce.


Teotônia fez vinte abortos

Em várias moças da Estaca...

Morreu e voltou ao mundo

Trazendo a cabeça fraca.


Amargosa provação

A de Ninhanha Ventura,

Seis abortos, seis problemas,

Obsessão e loucura.


Muito espírito conheço

Que sonhava paz e amor,

Que não podendo ser filho

Tornou-se perseguidor.


Cada qual é responsável

No amor que aceita ou que alcança;

Compromisso a cada um,

Mas que se poupe a criança.


Maternidade é tarefa,

Luminoso compromisso,

Um filho é bênção de Deus,

Não proteste, pense nisso.


Quando o aborto é indispensável

Tem a justa explicação,

Mas fora desse caminho

Aborto é perturbação.


Minha irmã, fuja do aborto,

Se um filho é a bênção que levas...

Aborto desnecessário

É sempre cousa das trevas.

 

XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida. Cap. 13.