As Núpcias de Caná
Amélia Rodrigues
Os arqueólogos divergem quanto ao local em que teria
ocorrido o sucesso.
Aliás, isto não é importante.
O incontestável é o fato em
si mesmo, que passou à história do Evangelho, demorando-se como marco
inconfundível dos novos tempos.
Narra-o João (Cap. 2, versículos 1 a 11) em linguagem clara
e precisa, sem retoques nem confusas imagens de retórica.
A ocorrência é comovedora, das mais belas.
A única em toda a Boa Nova que se dá em clima de alegria, na
qual Jesus participa dos júbilos gerais, permite-se viver as alegrias
transitórias do mundo...
Possui um sentido profundo, guarda uma mensagem
oculta, delicada, transcendente...
Era adar (março).
As chuvas do inverno haviam cessado.
A
terra estuante arrebentava-se em flores, enquanto os verdes cambiantes contrastavam
com as pedras negras e o céu azul ferrete.
... Fazia frio pela manhã, o sol abrasava ao meio-dia e a
temperatura caía ao entardecer.
Ao longe a moldura liquida do lago transparente
destacava-se; a seu turno, com a visão do monte Hermon coroado de neve
alvinitente.
Vez que outra escutavam-se as vozes da Natureza em
orquestração poderosa, enquanto os cantos das rolas faziam duelos com o vento
primaveril...
Betsaida situa-se a 208 metros abaixo do nível do mar, e
Nazaré a quase 500 metros acima.
A aldeia poderia ter sido a taful Kef Kenna, entre bosques
floridos e águas cantantes, próspera encantadora.
A subida lenta da montanha
desde Betsaida era de 28 quilômetros aproximadamente, vencendo as escarpas
pelos atalhos entre o Tabor e Djernaq a 10 quilômetros de Nazaré.
A paisagem,
todavia, fresca e agradável, diminuía a aspereza do caminho.
(Há autores e
estudiosos do Evangelho que asseveram ter o evento acontecido em Kirbet Qana,
onde hoje se encontram alguns escombros, situada a 14 quilômetros de Nazaré.
Preferimos a primeira hipótese. Nota da autora espiritual.)
Há dois meses que Ele saíra de Nazaré, deixando a
carpintaria com as ferramentas em silêncio.
Há pouco Ele estivera em Betabara, no Jordão, e deixara-se
batizar...
Seguira logo depois ao grande testemunho das tentações.
Já havia
convocado os primeiros companheiros, e os fatores propiciatórios do ministério
se reuniam.
Maria se encontrava em Caná.
Convidada, como foram Jesus e
os discípulos, antecedera-O.
Ele abraçou-a ao chegar com inaudita ternura.
Ela
O aguardava com ansiedade crescente e afeto desmedido.
A cena comovente estava assinalada pelas expectativas de
felicidade da mãe saudosa que se renovava no carinho do filho terno que a
afagaria.
Os abismos das distancias fecham-se; entre eles a comunhão
profunda com Deus se faz espontânea.
Aqueles dois primeiros meses de separação
eram o prenúncio da temporária e dorida distância terrena que se interporia
depois entre os dois.
Ele deveria percorrer os caminhos ásperos dos homens,
amando, não amado, enquanto ela O seguiria depois com a alma dilacerada por
invisíveis e afiados punhais...
De certo modo seriam assim as vidas de todas as mães, em
particular daquelas que doariam ao mundo os mártires, os heróis, os santos...
Estavam ao lado d'Ele, na ocasião, Felipe e Natanael que
eram de Caná e o seguiram.
Eram jovens e necessitavam de algo que os
embriagasse de fé, a ponto de mais tarde poderem doar a vida, conforme o
fizeram...
A festa nupcial convidativa iniciava-se em clima de
expectativas, em circunstâncias felizes.
Todas elas em Israel eram
significativas.
Consoante os recursos financeiros e a posição social dos
nubentes, demoravam de três a oito dias...
A cerimônia era grave, o compromisso responsável, de realce.
A noiva se fazia conduzida numa cadeira especial, obedecendo
a velhos rituais, e as alegrias estrugiam em todos os participantes do
cerimonial.
Os convidados, normalmente austeros, abstêmios e comedidos
noutras ocasiões, em tais oportunidades tornavam-se bulhentos, pródigos e
excesso...
*
Ao cair da tarde – enquanto as fimbrias de luz douravam o
cabeço dos montes mais altos e o lusco-fusco da tarde-noite permitia a visão do
lucilar das estrelas no alto – as festas se iniciaram.
Os atos nupciais foram realizados já, e todos exultavam em
efusivas saudações e brindes aos consortes.
Músicos e bailarinos convidados enchiam de melodias e
movimento as pérgulas e alpendres, as salas amplas da casa onde todos se
comprimem.
As abluções se fizeram fartas conforme as severas
recomendações da Lei.
Seis vasos de pedra com capacidade cada um para 2 ou 3
métrêtes (medida grega que corresponde a 40 litros, aproximadamente) estiveram
refertos.
Os convidados se banqueteavam com acepipes e guloseimas,
frutos secos e peixes defumados, fritos, gordurosos, acebolados.
As alegrias da
mesa farta se misturam às canções e ao vinho embriagante.
Eram famosos os
vinhedos da região, capitosos e diferentes.
Maria, diligente amiga da família, acompanhava as cenas e
rejubilava-se com todos.
A presença do filho era-lhe felicidade para o coração.
Sucedeu ao dia a noite serena e as festividades prosseguem.
O vinho corre abundante.
Convidados retardatários chegavam e as paisagens da emoção
se fazem renovadas.
No transcorrer das festas, Maria percebeu que o vinho não
poderia atender à insaciedade de todos e recorrer, aflita, ao filho.
Ela sabia da Sua procedência, do Seu poder, e resolveu
interceder junto a Ele pela família.
De certa forma será ela desde ali a perene intercessora
perante o filho em favor das criaturas humanas de todos os tempos.
Far-se-á
sublime mediadora a partir de então entre Jesus e os homens.
Acercou-se, discreta, e apresentou-lhe os receios do coração
a meia voz.
- Faltará o vinho – assevera-Lhe com preocupação – e isso é
sinal de mau agouro para os nubentes que começam a edificação do lar.
Jesus estava acima de tais conjunturas mesquinhas, não se
preocupando com as questões de pequena monta, as insignificâncias das
crendices.
E Israel as possuía muitas...
Fitou-a, amoroso, e redargüiu-lhe com a ternura habitual de
filhos devotado.
- Mulher, que tenho eu com isso?
Minha hora ainda não é
chegada.
A expressão mulher, não obstante soe aos ouvidos modernos
como rude, em Israel era verbete de carinho e respeito na intimidade familial,
desde os antigos.
Na Cruz, novamente Ele pronunciará a palavra num tom de
inesquecível angústia, mas também de devoção.
Maria, que Lhe conhecia a disposição de servir, asseverou
aos servos, tranqüila:
- Fazei tudo quanto Ele vos disser.
Há um momento breve de longa espera.
Os dois amores se penetram de ternura.
Ela sorri.
Ele
medita.
Ato contínuo, tocado pela significação do momento, Ele se
aproximou dos servidores e propôs:
- Trazei as talhas e enchei-as.
A água fui e referta transparente, clara, os depósitos
arrumados à Sua frente.
Ele distende as mãos em silêncio sobre a água.
A cena é rápida, simples, sem balburdia.
Poucos a percebem,
somente os que estão próximos.
Utilizando-se de pequeno vaso recolhe um pouco e sorve-o...
- Levai os vasilhames ao mordomo e distribui.
A voz dulçurosa apresenta-se com indefinível modulação.
Aquele
é o primeiro momento que produzirá deslumbramentos, não o último...
Ele conhece os homens, sua infância espiritual, seus ardis.
Nas alegrias se iniciarão Suas dores...
O Mestre-de-cerimônias, tomando de um cíato dourado, recolhe
o liquido que sorve com espanto e exclama:
“Este vinho deveria ter sido servido antes que os convidados
estivessem tontos, a fim de lhe valorizarem o sabor, como se usa fazer,
primeiro apresentando-se o bom para depois o de qualidade inferior...”.
Os comentários apontam-nO responsável pelo ocorrido.
Admiração e surpresa confraternizam.
Ele silencia.
Os sons das flautas, dos alaúdes, dos pífaros são o
contracanto à melodia de entusiasmo na garganta de todos.
*
Caná será o marco inicial do Seu ministério público, numa
boda, num momento festivo.
A Sua prisão se dará em outra festa, na da Páscoa, enquanto
Israel está em júbilos...
Na primeira, Ele participa das bodas e as abençoa.
Empresta
significação e responsabilidade ao matrimonio.
Ale, confere apoio, distende
compreensão, começa a doar, adoçando a esperança de todos.
Aqui, o dever é cruz de devoção.
Na outra, Ele se dá à Humanidade em sacrifício da própria
vida, sorvendo vinagre e fel no madeiro da agonia.
Essa é a cruz da renúncia, da abnegação.
Seus feitos são lições de inconfundível beleza e sabedoria.
Entre as duas festas transcorrem menos de três anos.
Os
velhos alicerces do mundo tremem nesse ínterim.
Sua voz reformula os códigos dos direitos humanos e as Suas
ações darão inicio à Era Nova do amor, dantes jamais sonhada.
Ele é o meio-dia das criaturas de todos os tempos, o divisor
da História.
*
Natanael e Felipe se deslumbram com o fenômeno da
transformação da água em vinho, participam dos comentários que todos entretecem
sobre Ele e não cabem em si de entusiasmo.
Desde ali, Seu nome se fez conhecido, facilmente
identificado.
A voz do povo propaga-O aos quatro ventos.
Quando soarem as Suas horas nas praias e nas praças, nas
sinagogas e nas ruas, Ele abrirá os braços e afagará as multidões,
conduzindo-as ao rumo da luz inapagável e da felicidade que não se acabará.
Caná é a marca inicial do Evangelho dos feitos.
O Gólgota,
porém, não se tornará o término da Sua mensagem, como se poderia supor.
Até hoje, nas alegrias e nas tristezas, Jesus se apresenta
para o homem de todos os tempos, conforme ocorreu nas bodas inesquecíveis,
produzindo um sublime noivado com a criatura humana, ao mesmo tempo
convidando-a para as excelsas núpcias que se realizarão no reino espiritual, o
Seu reino além deste mundo.
FRANCO, Divaldo Pereira pelo Espírito Amélia Rodrigues.
Quando a primavera voltar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário